domingo, 3 de fevereiro de 2013

Luto: preparo e vivência


            Precisamos nos preparar para vivenciar a perda de alguém. Preferimos não pensar nisto, por isso negamos a realidade trágica, especialmente quando se apresenta revestida de violência e imprevisibilidade extremas, como aconteceu em Santa Maria, Rio Grande do Sul. O luto é a melhor maneira de vivenciar a crua realidade da morte.
Para cada pessoa que falece, segundo informações, pelo menos outras cinco vivenciam o luto, e muitas delas precisam de ajuda profissional na elaboração desta experiência. Provavelmente, o horror da experiência de Santa Maria, devido a comoção de pesar que tomou conta do País, o luto ganha enormes proporções, mas também, importância relevante para a saúde mental de nós todos.
            O luto mais difícil de ser vivenciado é o da perda de um filho, porque: a lógica natural da existência foi invertida; porque, muitas vezes, não contavam com a intromissão da contingência; muitas perguntas, se a tragédia poderia ter sido evitada, ficarão sem respostas. Não é fácil transformar a experiência que congela a vida no pior dos seus momentos, em tristeza e saudade. Enquanto isto não acontece, o processo do luto não cessou. A tragédia pode paralisar a energia da vida.
Quando isto acontece, instala-se o Transtorno de Estresse Agudo (TEA), que pode durar de dois dias a um mês depois do trauma, podendo evoluir para o quadro de Transtorno do Estresse Pós-traumático (TEPT), caso não seja vivenciado adequadamente. O TEA, entre outras coisas, pode provocar: sentimento subjetivo (da psique) de anestesia por se ver impotente, com medo e horrorizado com o acontecimento; distanciamento ou ausência de resposta emocional, em proporção ao evento; incapacidade de recordar um aspecto importante do trauma (amnésia dissociativa); reviver o evento traumático em pesadelos, pensamentos ou imagens; ansiedade, inquietação motora e elevado estado de alerta. Em caso de TEPT, o enlutado pode sofrer: queda no interesse de se relacionar com outras pessoas, de participar de eventos sociais, ter surtos de raiva, dificuldades de concentração e um sentimento de futuro abreviado (Manual de Diagnóstico da Sociedade Americana de Psiquiatria).
 “O corpo sofre uma descarga de substâncias químicas que seguem em níveis elevados dias depois da tragédia e que o deixam em um estado de hipersensibilidade, ao ponto de o barulho da queda de um garfo provocar um sobressalto exagerado” – explica o psiquiatra Renato Piltcher, de Porto Alegre (Zero Hora, 28/07/07).
            As tragédias podem paralisar a energia da vida, isto é, soma e psique se congelam sob o rigoroso inverno da experiência traumática.         
            “Lidar bem com a perda pode significar à pessoa refazer muitos conceitos importantes em sua vida, que nos ajudam a entender o motivo de tais experiências. O tempo é necessário para que a pessoa se dê conta da realidade imutável da morte. Posso dizer que o tempo é um remédio quando ele é um aliado de outros recursos importantes como: apoio dos amigos, de uma crença religiosa, de uma relação saudável com o falecido, de boas condições de saúde” – afirma a psicóloga Maria Helena P. Franco, fundadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto, da PUC/SP.
            Para vivenciar a morte é importante: engajar os enlutados em causas coletivas, permitir que as famílias se encontrem para que identifiquem as dores uns dos outros, respeitem o tempo e a reação que cada um tem em aceitar a morte, entre outras medidas.

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